Quando foi a última vez que você olhou o mundo como uma criança?

Quando chega o Dia das Crianças, é natural pensarmos nelas. Nos presentes, nos passeios, nas brincadeiras, nas surpresas que podemos preparar e nas lembranças que queremos construir. Mas, depois de tantos anos convivendo diariamente com a infância, gosto de pensar que essa data também pode nos fazer uma pergunta diferente. Em vez de olharmos apenas para o que podemos oferecer às crianças, que tal percebermos um pouco do que elas ainda podem nos ensinar?

Conviver com crianças é ter diante dos olhos uma maneira muito particular de enxergar a vida. Elas percebem detalhes que nós, adultos, muitas vezes deixamos passar. Param para observar algo pequeno no caminho, fazem perguntas que nunca nos ocorreram, inventam possibilidades para objetos que já tinham uma função definida e conseguem transformar situações muito simples em acontecimentos importantes. Não porque estejam tentando nos ensinar alguma coisa, mas porque ainda se relacionam com o mundo com curiosidade e disponibilidade.

Ao longo dos anos na escola, presenciei inúmeras cenas assim. Crianças encantadas com uma descoberta aparentemente pequena, conversas que começam a partir de uma pergunta inesperada, brincadeiras que nascem de quase nada e ganham histórias inteiras. Muitas vezes, enquanto o adulto está preocupado em chegar ao destino, cumprir o horário ou terminar uma tarefa, a criança está interessada no que encontrou durante o caminho.

Talvez seja essa uma das diferenças mais bonitas entre o olhar adulto e o olhar infantil. Nós aprendemos a viver antecipando o que vem depois. Enquanto tomamos café, já pensamos no trânsito. Enquanto trabalhamos, lembramos do que precisamos resolver em casa. Durante uma conversa, o celular chama nossa atenção. Terminamos uma tarefa e imediatamente buscamos a próxima. Aos poucos, vamos ficando muito eficientes em organizar a vida e nem sempre tão disponíveis para percebê-la.

As crianças ainda não vivem o tempo dessa maneira. Quando estão verdadeiramente envolvidas em uma experiência, estão inteiras ali. Isso não significa romantizar a infância, como se crianças fossem naturalmente tranquilas, felizes ou encantadas o tempo todo. Elas também se frustram, se irritam, sentem medo, ficam entediadas e vivem emoções intensas. Mas existe nelas uma abertura para descobrir o mundo que merece ser observada.

Talvez por isso tantas experiências da infância permaneçam conosco por tantos anos. Nem sempre são os grandes acontecimentos que ficam guardados. Muitas vezes, lembramos do cheiro de uma comida preparada em casa, de uma música que alguém cantava, de uma brincadeira no quintal, de uma viagem de carro, de uma história contada antes de dormir ou de um adulto que se sentou no chão e entrou, por alguns minutos, em nosso mundo.

Quando nos tornamos adultos, é fácil imaginar que proporcionar uma infância feliz depende de criar grandes experiências. Queremos oferecer oportunidades, conhecimento, atividades e tudo aquilo que estiver ao nosso alcance. Esse desejo nasce do amor, mas pode nos fazer esquecer que boa parte da infância acontece justamente nos intervalos daquilo que planejamos.

Ela acontece na conversa dentro do carro, na ajuda para preparar um bolo, na caminhada sem pressa, na cabana improvisada na sala, na pergunta feita quando já estávamos prontos para encerrar o assunto. Acontece quando permitimos que um momento simples dure um pouco mais porque percebemos que, para aquela criança, ele ainda não terminou.

Olhar o mundo como uma criança não significa voltar a ser criança. Significa recuperar um pouco da nossa capacidade de estar diante das coisas sem precisar imediatamente transformá-las em tarefa, resultado ou utilidade. É conseguir acompanhar uma descoberta sem apressá-la, ouvir uma história que já conhecemos sem terminar a frase por quem está contando e aceitar que, algumas vezes, aquilo que parece perda de tempo para nós é justamente onde algo importante está acontecendo.

As crianças também nos lembram que não precisamos saber tudo antes de começar. Elas experimentam, erram, desmontam, perguntam novamente, mudam as regras da brincadeira e encontram outro caminho. Nós, adultos, fomos aprendendo a ter medo de não saber, de não fazer direito, de parecer inadequados. Talvez por isso seja tão bonito observar alguém descobrindo alguma coisa pela primeira vez. Há uma liberdade naquele instante que reconhecemos, mesmo sem perceber.

Neste Dia das Crianças, certamente haverá presentes, passeios, almoços em família e muitas formas de celebrar. Tudo isso pode fazer parte de uma memória feliz. Mas talvez possamos oferecer também algo que não cabe em uma embalagem: a nossa curiosidade pelo mundo delas.

Podemos perguntar sobre aquilo que estão vendo, ouvir uma explicação até o fim, aceitar um convite para uma brincadeira ou simplesmente observar por alguns minutos o que desperta tanto interesse. Não para transformar o momento em uma atividade educativa, nem para aproveitar a oportunidade para ensinar alguma coisa. Apenas para estar junto.

Porque a infância não precisa existir somente como uma fase que nós, adultos, conduzimos. Ela também pode ser um lugar que visitamos de tempos em tempos, quando aceitamos diminuir o passo e enxergar aquilo que a pressa deixou invisível.

Talvez o melhor presente deste Dia das Crianças seja esse encontro. Enquanto ajudamos nossos filhos a descobrir o mundo, permitimos que, vez ou outra, eles nos ensinem a olhar para ele novamente.

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Cristina Martinez

Educadora parental, formada em Medicina Comportamental pela UNIFESP, diretora e mantenedora da escola Ver Crescer, autora do Best Seller O Solzinho de Todas as Cores, autora de mais dois livros: Acenda Sua Luz e Disciplina e Afeto, coordenadora editorial de diversos livros sobre educação infantil e parental.

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